terça-feira, 7 de maio de 2013

Altos e baixos de um recém-nascido


O Festival O Boticário na Dança encerrou ontem em São Paulo. Consegui ver todos os espetáculos, então aproveito agora para fazer um apanhado dos altos e baixos do evento. Lá vai.

Sobe
- A curadoria: Ao bancar a vinda ao Brasil de quatro companhias internacionais completamente inéditas pelas bandas de cá, todas com trabalho sedimentado a partir dos anos 2000, a curadoria do alemão Dieter Jaenick (ex-Carlton Dance) demonstra uma ousadia aparentemente abandonada pelas produtoras que costumam trazer grandes grupos estrangeiros e se acostumaram a apresentar repetecos não só de grupos, mas até mesmo de programas, como se quisessem reprisar o sucesso obtido em turnês anteriores. Sabemos, porém, que a coisa não funciona bem assim e nada garante público.

- O preço dos ingressos: Não surpreende que o Festival tenha iniciado com todas as apresentações com ingressos esgotados. Afinal, pagar R$ 20 para ver uma produção exigente do ponto de visto logístico, com cenários robustos e elenco vasto, não é nem razoável, é barato mesmo. E começar tudo com garantia de casa cheia – e de filas de espera longuíssimas – dá um gostinho bem saboroso na boca.

- A opção por organizar um festival: Tenho um chute. Pelo que vi nestes últimos dias, organizar apresentações encarrilhadas dia após dia, usando um mesmo bombardeio de divulgação para todas as atrações, é mais eficiente para a formação de público novo do que a organização de temporadas. Claro que os habitués da cena da dança contemporânea de São Paulo estavam por lá, mas o que marcou foi ver mesmo muita cara nova, e em repetidos dias. Ponto para o ingresso barato e a divulgação.

Desce
- Privilégio da Shen Wei: Não deu pra entender muito bem por que a Shen Wei Dance Arts foi a única contemplada com dois dias de apresentação. Ok, o programa foi interessante – uma dobradinha com "A Sagração da Primavera" e "Folding" –, dando vazão a aspectos completamente distintos de uma mesma companhia, com a primeira peça extremamente virtuosa e a outra com uma dramaturgia mais bem trabalhada e emocionante. O problema é que faltou a ela o impacto que uma obra como a de Hofesh Schechter teria para abrir os trabalhos.

- Encerramento numa segunda (!): Também não deu pra entender de jeito nenhum por que resolveram por fim ao festival numa segunda-feira – ainda mais quando o programa de encerramento seria o mais longo de todo o festival, numa sequência da Quasar e do Grupo de Rua de Niterói, cada um com trabalhos de 60 minutos de duração. A perspectiva de fim para depois da meia-noite, quando o transporte público fica escasso, fez mais da metade do público se mandar antes da hora, no meio do espetáculo, o que é sempre péssimo. Além disso, perdeu-se a oportunidade de fechar de forma apoteótica, como uma grande festa. Sair do Auditório vendo aquele monte de poltronas já vazias deixou um gostinho ruim.

- Grupo de Rua de Niterói: O trabalho mais desafiador de todo o Festival foi também o mais mal programado. Apesar de seguir a linhagem da popular street dance, "H3" não é uma peça de simples absorção, que causa empatia de cara. Ela demanda tempo e abertura do público, algo que só se consegue numa intricada negociação entre artista e plateia que dificilmente se realizaria às 22h30 de uma segunda-feira, hora em que a peça começou, logo após "No Singular", trabalho de verve muito pop da Quasar. Acabou que uma coisa não combinou com a outra, apesar de os dois espetáculos funcionarem bem (mas cada um no seu quadrado).   

sábado, 4 de maio de 2013

"É muito caótico fazer dança", diz Hofesh Schechter

O israelense Hofesh Schechter era um cara dividido entre a música e a dança até resolver unir as duas paixões no início dos anos 2000 com a fundação de sua própria companhia, sediada em Londres. "Political Mother" é a síntese da fusão feita pelo coreógrafo entre essas duas linguagens. Criado em 2010, o espetáculo foi atração de ontem da edição paulistana do Festival O Boticário na Dança. Nele, dança e rock and roll ao vivo se unem para criar um manifesto jovem e poderoso sobre a condição de opressão sob a qual está submetido o homem contemporâneo. Fruto da aclamada companhia israelense Batsheva, Schechter toma emprestados elementos da dança folclórica para criar uma movimentação original e contagiante. Segue abaixo a íntegra da entrevista que fiz com ele, publicada ontem no jornal Metro.


Você já esteve na Batsheva Dance Company e também teve uma banda de rock. Você poderia falar da relação entre dança e música em seu trabalho?
Comecei na arte como pianista, quando tinha 6 anos. Meu ponto de partida foi esse: ouvir muitos discos de música clássica. Descobri a dança quando tinha uns 12 anos, por meio da dança folclórica, e o que mais gostei dela foi o aspecto coletivo. Com o piano, eu praticava tudo sozinho. Na dança, eu poderia estar com outras pessoas. Foi meio desafiador, mas também interessante fazê-lo. Quando entrei na Academia, em Jerusalém, escolhi entrar no departamento de dança pelo mesmo motivo. Preferia estar com outros do que sozinho numa sala. E daí entrei na Batsheva. Fiquei alguns anos e foi uma experiência incrível, aprendi muito, mas também sentia que meu coração estava um pouco dividido. Eu realmente queria dançar, mas sentia que o lado musical da minha vida estava dormente e que sentia falta dele. Eu realmente queria me reconectar com esse aspecto. Daí saí do Batsheva. Não sabia bem o que fazer, então comecei a tocar bateria. Meio por acaso, cheguei a Londres e toquei em uma banda de rock, mas ela acabou se desfazendo por falta de grana. Então me vi tendo que dançar de novo em uma companhia. Mas depois de dois anos na cidade, decidi que queria fazer meu próprio trabalho. Foi a primeira vez que me senti pleno, por poder fazer tanto música quanto dança, e fazer esses dois mundos ficarem juntos de uma maneira completamente harmônica. Tive um prazer imenso de poder criar todo o trabalho: a música, a cenografia, a coreografia. É muito difícil, mas há algo de muito satisfatório nisso tudo, algo de muito excitante.


Seu trabalho não parece funcionar bem no vídeo.
Acho que o público tem um grande papel no espetáculo. Talvez ele esteja ciente do fato de que ter outras mil pessoas também testemunhando aquilo qe está acontecendo no espaço é parte do que o torna poderoso. Há algo sobre o espetáculo, o poder da música ao vivo. Algo em que realmente penso quando faço um trabalho é criar algo para ser mostrado, algo parecido com uma grande cerimônia. Sem as pessoas, ele perde a força. Acho que há algo na peça que talvez as faça não se sentirem apenas como espectadores, mas parte daquilo. E talvez você não se sinta assim se a vir em um DVD.


Uma das apresentações de "Political Mother" teve parte das poltronas retiradas para que o público pudesse ficar de pé. Foi ideia sua?
Foi algo que imaginei depois de muita gente me dizer que gostaria de se mexer, que se sentiu preso à cadeira ao ver meu trabalho. Pensamos nisso e encontramos a ideia de fazer o público se levantar se quisesse, como em um show de rock. Fizemos isso em "Political Mother – The Choreographer's Cut", que tem 25 músicos no palco. Então, na verdade, é mesmo um grande show de rock. A diferença é incrível, porque as pessoas se sentem muito mais livres para responder ao trabalho quando estão de pé. Elas gritam e é incrível, eu realmente gosto. Você vê as pessoas deixando a música e a dança se apoderar do corpo delas. E isso também quebra um pouco as regras do teatro.


Você sente que "Political Mother" é a consolidação de sua obra?
Não sei. Não vejo as coisas desse modo. Acho que ser um artista é algo muito frágil. Confiança não é algo com o qual eu me sinta confortável. O trabalho em dança – a coreografia – é muito temporário. Você faz algo, está logo no palco, tem a perfomance, que vai e vem. Então, é difícil para mim ter o sentimento de uma conquista. É muito caótico fazer dança. Não é como escrever um livro. Posso ver um progresso e ter a noção de que meu trabalho se torna mais complexo. Ele se transforma lentamente, mas toma ângulos diferentes. Sempre faço trabalhos sobre o que eu sou, sobre o ponto em que estou na vida.


Que questões o preocupavam enquanto concebia "Political Mother"?
Acho que o principal elemento foi fazer realidade diferentes se chocarem umas com as outras. Cada um desses mundos representa parte da nossa vida ou das energias que existem no mundo. Então eu senti que seria interessante colocá-los próximos um ao outro, quase como em um filme, e criar uma resposta emocional a partir daí. Acho que as primeiras são frustração e raiva. Outra, que vêm depois, é aceitação. Pensei muito e percebi que vivemos em um mundo maluco! Tentei trazer questões sobre controle, perseguição, opressão e a confusão entre escolher seguir algo e acabar sendo escravo desse algo. Em suma, é um trabalho sobre a política de nosso mundo e como sobrevivemos à opressão.


Por que criar um "Choreographer's Cut"?
Foi uma pequena piada. Óbvio que quando fiz o primeiro trabalho, fiz o que realmente queria, mas com "Choreographer's Cut" eu tive mais liberdade. Recebi um apoio para fazer o que eu quisesse, com o dinheiro que precisasse. Isso me deu liberdade para criar uma verdadeira celebração. Não senti que mudei o coração da peça, que é uma massa de gente, e ela acabou ainda mais poderosa. É barulhento, grande e arrebatador.

Um cometa na dança contemporânea

Escrevi o texto abaixo em setembro de 2010, horas depois de ter assistido "Political Mother", de Hofesh Schechter, pela primeira vez, durante a Bienal de Dança de Lyon. Quando soube que a peça estaria no Festival O Boticário na Dança, fiquei animadíssima. As lembranças que tinham era de uma peça jovem e vigorosa, capaz de atingir facilmente a uma plateia leiga, mas sem ser puramente comercial ou cheia de concessões. Uma peça superurbana, com a cara de São Paulo e do público daqui. Pela reação que vi na noite de ontem, parece que ela "bateu". Na minha revisão, no entanto, encontrei alguns poréns. Pensei em reescrever, mas acho que a essência do texto - escrito originalmente para a Folha de S.Paulo, mas nunca publicado - se mantém. Por isso, aqui vai.



Ditadura, semitismo, ritual, massa e pop rock são palavras que se aglomeram em torno do trabalho mais recente do coreógrafo israelense Hofesh Shechter. “Political Mother”, que foi apresentado no último fim de semana na 14ª Bienal de Dança de Lyon, é uma bomba de informações sobre a condição política do homem contemporâneo.
Estabelecendo uma ponte direta entre passado e presente, o trabalho tem arrastado comentários positivos tanto de público quanto de crítica.
A hecatombe provocada por Shechter é anunciada antes mesmo do início da peça. Na entrada da sala, recebe-se um par de tampões de ouvido: prenúncio de que o que viria faria muito, muito barulho.
A trilha, composta com participação do coreógrafo, é posta no volume máximo. Nela, uma música de base, parecida com as tradicionais judaicas, é sobreposta por marchas militares e rock and roll tocados ao vivo, com músicos no próprio palco.
Ao fundo, dois bailarinos se alternam ora no papel de líder de banda rock, ora no de um ditador aos moldes de Adolf Hitler. Enquanto isso, outros tantos tomam o palco numa dança frenética, com movimentos propositalmente cheios de afetações.
A cenografia é carregada, predominantemente escura, coberta de fumaça, com raras aberturas de luz. Todos esses elementos contribuem para uma rica experiência auditiva e visual que empurra inevitavelmente o público para dentro da cena, criando uma atmosfera cativante, principalmente para os mais jovens.
Shechter se aproveita dessa captura para propor uma reflexão sobre a dificuldade da coexistência e os riscos da intransigência política e cultural, num ritmo quem mantém uma tensão de arrepiar.
É um espetáculo por vezes excessivo, que talvez ganhasse mais força caso melhor editado. Mas o saldo é positivo e impressionou o público lionês após uma estreia de sucesso, em maio, na Inglaterra.
Apesar de ter nascido em Jerusalém e ter integrado a tradicional companhia Batsheva, o coreógrafo reside em Londres desde 2002, onde trabalha com o grupo que leva seu nome. “Uprising”, criada em 2006, é o marco que o fez ser apontado como novo “cometa” da dança contemporânea.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Construído no "entre"

Cena da primeira parte do espetáculo, "Safo". Crédito: Bruno Veiga/Divulgação

A questão na qual se fundamenta “Dociamargo” se levanta já no neologismo de seu próprio título: algo que não é doce, nem amargo, é dociamargo, as duas coisas ao mesmo tempo, um adjetivo que parece se contradizer em si, mas que, ainda assim, soa viável. Afinal, por que não?

É nesse “entre”, na mistura que faz surgir algo novo, que se constrói o novo espetáculo da Renato Vieira Cia. de Dança. A peça é concebida em duas partes, a primeira de autoria do de Bruno Cezário e a segunda, do próprio Vieira. Cada uma se debruça sobre o drama amoroso a partir de duas figuras gregas,  respectivamente: a poetisa Safo, que tinha como principal temática o amor às mulheres, e o mito de Afrodite, a deusa do amor.

Em cena, os coreógrafos propõem leituras distintas sobre o tema, mas que inerentemente se cruzam. Detentor de uma concepção cênica bastante amadurecida, Cezário abre o trabalho com uma imagem marcante que dará a tônica do que virá. O amor de Safo, segundo ele, é um mergulho sem medidas em um buraco negro, infinito como a saia aparentemente sem fim da bailarina Soraya Bastos. Há, aqui, certo tom de melancolia e desespero, qualidades desse tal “dociamargo” exaltado, pela primeira vez, em um poema de Safo.

Mas é na peça de Vieira que a questão da mescla presente no neologismo do título fica mais evidente. Embalado pela força das tragédias operísticas, ele reflete justamente sobre esse algo novo, inédito, construído no "entre" de coisas distintas, que assusta e seduz ao mesmo tempo. Através das imagens propostas – uma delas com um bailarino sobre saltos altos – faz-se rapidamente uma associação desse “entre” com a cultura transexual, do indivíduo que não é homem nem mulher, mas trans, e que, tal qual como o amor, transborda gêneros e é impossível de se categorizar.

A beleza de “Dociamargo” está em deixar este senso de novidade e de estranhamento guiar a construção coreográfica. Com isso, a peça confere um significado para o termo que não pode ser posto em palavras, mas apenas dançado. E quando só se é possível dizer algo dessa forma, bem, certamente estamos diante de boa dança. 

Serviço: Renato Vieira Cia. de Dança ( Rio de Janeiro)
Onde: Complexo Cultural Funarte/SP – Sala Renée Gumiel (Alameda Northmann, nº1058, Campos Elíseos, tel.: 11 3662-5177)
Horário: 19 horas
Classificação: 18 anos
Ingressos: R$ 10,00 ( inteira ) e R$ 5,00 ( estudantes e idosos)
Capacidade da sala: 70 lugares

segunda-feira, 4 de março de 2013

Nem tudo que reluz é ouro

Tem muita gente que não gosta de galas. Eu até entendo, sabe? Você vê um bocado de peças soltas, sem conexão aparente umas com as outras, e sempre sob o risco de o resultado final não passar de mero exercício de virtuosismo. Justamente por isso, programar uma boa gala é bem mais difícil do que parece.

Digo isso ainda sob o impacto da Gala Royal Opera House, que abriu a temporada 2013 do Theatro Municipal do Rio neste último fim de semana. Anunciada em conjunto com uma bem-vinda parceria entre as casas britânica e carioca, a apresentação causou inevitável expectativa: oito primeiros-bailarinos do Royal Ballet, incluindo os brasileiríssimos Thiago Soares e Roberta Marquez, dançariam algumas das mais finas peças do repertório desta instituição britânica - tudo intercalado pela participação de três cantores do programa Jette Parker para Jovens Solistas.

A sequência de atrações anunciada também era promissora: alguns grand pas-de-deux pesos-pesados, como "Cisne Negro" e "A Bela Adormecida", estariam mesclados a trabalhos dos atuais expoentes da companhia, como Christopher Wheeldon e Wayne McGregor (ele mesmo, o coreógrafo favorito do Thom Yorke!).
 

Mais amor, por favor, para Thiago Soares, ao lado da amada Marianela Nuñez, do grand pas do"Cisne Negro" 
Pois bem, a coisa começou a degringolar quando foi anunciado, logo ao início, que, "por motivos de saúde" do bailarino Steve McRae, as peças "Im Treibhaus", de Alastair Marriott, e o pas-de-deux do balcão de "Romeu e Julieta" - este com Marquez - não seriam apresentadas. Ok, imprevistos acontecem. Mas, em todas as vezes que já lidei com essa situação, sempre havia um esforço para "remendar" a noite com a substituição das obras perdidas. Dessa vez, tive que chupar o dedo.

É que essa simples configuração mudou tudo. O que era para ser secundário - a parte das árias - ganhou destaque acima do esperado e descompensou a apresentação. O "Cisne Negro" do casal Thiago Soares e Marianela Nuñez sofreu com a falta de sincronia entre o ritmo dos bailarinos e o andamento da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, desta vez sob a regência de Dominic Grier. E quem conhece a obra de Tchaikovski (1840-1893) composta especialmente para balé sabe que vê-la ser dançada fora do tempo, como se deu em alguns momentos aqui, é praticamente um sacrilégio.

Além disso, Soares já esteve bem melhor no palco. Seus movimentos continuam corretos, mas o vigor e a interpretação - seus grandes diferenciais - andam ofuscados por uma espécie de excesso de energia do corpo que o faz gastar força demais para gestos que só fazem sentido em um estado mais desarmado, que exige sutileza.

O duo "Qualia", por Leanne Bejamin e Edward Watson, também pareceu padecer do mesmo mal. Mas... o trabalho de McGregor é excessivamente virtuoso, nele não há momentos de suaves. Além disso, sua questão é mesmo o movimento. Então tudo bem.

Intervalo, rumo ao segundo ato: "a coisa agora vai decolar", penso. Só que não.

Veio Bejamin com "Requiem - Pie Jesu", um solo de Kenneth MacMillan (1929-1992) que não mostra quase nada de um dos coreógrafos que mais soube imprimir sua marca no Royal Ballet. Com "Romeu e Julieta" fora da jogada, restou a Sarah Lamb e Edward Watson dizerem o que realmente representou a obra do cara com uma interpretação do pas-de-deux de "Manon" - comportada, e não arrebatadora, como a música de Massenet implora.

Teve também um come back de Soares & Nuñez com "After the Rain", de Christopher Wheeldon, sob música de Arvo Pärt - e foi aqui, onde só há o piano e o violino como trilha, que a sensação do grand pas do "Cisne Negro" virou certeza. Quem já ouviu "Spiegel im Spiegel" não pode esperar nada menos que sutileza e doçura. E como fazer isso com um corpo tensionado o tempo inteiro? Nesse jogo, Marianela se saiu bem melhor.

Daí chegou a hora da única participação de Roberta Marquez na noite, no grand pas-de-deux de "A Bela Adormecida", também de Tchaikovski, com o tal bailarino que, por motivos de saúde, não dançara outras duas peças (e fez, ainda assim, a melhor variação da noite, vá lá entender como). Ela é uma graça. Seu único pecado foram uns braços ininteligíveis durante as piruetas que acabavam em pescada (essa pose aí de baixo, ó). De resto, ela pareceu ter nascido para ser princesa Aurora para sempre - não à toa, foi dançando este papel, como convidada do Royal, que ela descolou o posto de primeira-bailarina por lá.


Senhor McRae, não me importo de passar mal de vez em quando se isso me fizer conseguir os seus tours en l´air, viu?

E aí.. puft. Agradecimentos do casal. Entram os demais. Agradecimentos de todos... Acabou. Eu, que estava sem o programa, fiquei desconsolada. Onde teria ido parar o conjunto que encerraria a noite? Pelo que tinha lido antes de sair de casa, seria uma peça de Liam Scarlett em cima de música de Strauss II, com a participação de todos, cantores e bailarinos.

Scarlett é a sensação do momento na dança inglesa. Ele abandonou a carreira de bailarino para se dedicar à coreografia, tendo sido apontado no fim do ano passado como artista residente do Royal Ballet. Tudo isso, pasmem, aos 26 anos. Não tinha como não estar curiosa para conferir algum trabalho dele. Mas não. Encerrou aí mesmo com o pas-de-deux, um repeteco da parceria Tchaikovski-Petipa (já vista no "Cisne Negro"), tudo na mesma noite...

Confesso, saí do Municipal do Rio frustrada. Adoro o Royal, mas a gala esteve realmente aquém do que a companhia é. E olha que tive tempo para pensar a respeito de tudo isso, já que o caminho de volta para casa levou umas boas seis horas de estrada. Ainda torço muito para que a turnê de 2015 aconteça. Mas aí, sim, com toda a estrutura disponível e necessária - e com todos de prontidão para os devidos ajustes no programa, quando necessário.

Tão bonitinho por fora, mas por dentro...

Que pena que a reforma do Municipal não restaurou o repeito do público... 
Aviso: o desabafo que você está prestes a ler oscila numa tênue linha entre a ode ao respeito e a chatice de galocha.

A partir de hoje, vou pensar cinco vezes antes de sair de São Paulo para ver algo no Theatro Municipal do Rio. Porque é simplesmente inadmissível querer assistir a um espetáculo de quem você valoriza e honra ao lado de quem não se importa de forma alguma com quem está ao lado e, muito menos, com o artista que está à frente.

No último sábado, durante a Gala Royal Opera House, fiquei ensanduichada entre espécimes que exemplificam bem isso. Do lado esquerdo, uma dupla de senhoras de cabeça branca, aparentemente na casa dos 80 anos, não parava de falar durante as aberturas de atos, com peças de Wagner e Verdi. Do lado direito, um senhor permaneceu o espetáculo inteiro com a luz do celular ligada para acompanhar a "evolução" do espetáculo lendo o programa. No intervalo, percebi que a esposa deste acompanhava a transmissão da novela das 21h, por um tablet, com closed caption.

Ainda neste intervalo, enquanto passeava no hall, um jovem senhor com sotaque estrangeiro perguntou a um dos lanterninhas se não seria possível dar um puxão de orelha no público, pelo sistema de locução, censurando o falatório geral. O funcionário nem cogitou a hipótese. Na volta para o segundo ato, reafirmaram apenas o de sempre: sem fotos, sem bebidas, sem comida (e, obviamente, ainda tivemos que lidar com flashes e ver gente com garrafinha de água na plateia).

Ah! Tem ainda o fato de que, tanto antes do início do espetáculo quanto neste mesmo intervalo, fui comprar o programa e descobri que ele estava esgotado. "Agora só amanhã", disse-me o segurança.

Ano passado, vendo a montagem de "Coppelia" nesta mesma casa, numa montagem do Balé do Theatro Municipal do Rio, fiquei paralisada. Diante do ti-ti-ti atrás de mim, quando os bailarinos já estavam até mesmo em cena, me virei, olhei para a garota que estava falando e fiz aquele sinal de silêncio das enfermeiras, sabe? Com o dedinho na frente dos lábios. A menina se calou imediatamente e eu retornei para ver o espetáculo achando que estaria, enfim, em paz. Daí alguém me dá um tapinha no ombro, me viro e a mãe dela brada em alto e bom som: "Não fale assim com a minha filha, não!!!"

Que reação é possível diante de uma inversão de valores como essa?

Arte é imersão. Adoro a potencialidade encerrada nas três paredes da caixa cênica e todas as trocas que permeiam a fronteira entre o palco e a plateia. Gosto de ver como um artista "funciona" diferentemente com plateia vazia e cheia, e quão maravilhoso é ver-se parte de uma obra, sair dela tocado de alguma forma, com a cabeça fervilhando de ideias, com uma poesia visual dentro de si.

Isso já não é fácil com as condições ideais de temperatura e pressão, quando a maior parte desse peso fica mesmo no ombro dos artistas e em nossos olhares de juiz. Imagine quando NADA no ambiente ao redor favorece, nem a belíssima arquitetura que envolve a cena, nem a equipe da casa que não se estrutura para imprimir um mínimo de programas capaz de atender aos espectadores.

Depois dessa noite, amanheci em São Paulo e resolvi assistir a um concerto matinal da Orquestra Sinfônica Municipal. Sala um tanto esvaziada, um programa com peças de Respighi e Rimsky-Korsakov e um jovem maestro italiano convidado sobre o qual nunca tinha ouvido falar até então.

Houve falhas? No meu ouvido de leiga, um pouquinho, sim. Um desafino no violino aqui, um oboé brevemente mais abafado do que o usual acolá. Mas o resultado conseguiu me emocionar de um jeito que a plateia lotada do sábado não me deixou nem tentar alcançar. E o melhor mesmo foi sentir, na hora dos aplausos, que a minha sensação parecia ser a mesma daqueles que aceitaram dividir, durante hora e meia, aquele espaço ao meu lado. Com respeito e admiração (sim, é simples assim). 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Ballethunter

Há pessoas que viajam para apreciar vinhos. Outras, para conhecer museus. Há ainda aquelas que se aventuram por restaurantes mundo afora. Eu, basicamente, viajo para ver dança.


Cresci vendo 4 ou 5 fitas VHS com gravações de raras transmissões de balés numa TV paga ainda capenga no Brasil. Em um tempo sem YouTube e com mercado de fitas importadas praticamente inexistente, essa era uma das únicas maneiras de 1) conhecer balés de repertório e as principais companhias capazes de montar peças do tipo com propriedade 2) saber quem eram e como dançavam os grandes bailarinos da minha geração (mesmo com uns dez anos de defasagem).

Não faço ideia quantas vezes revi tudo (bem, pelo menos foi o suficiente pra deixar as VHS sem mofo até hoje). A questão é que, junto desse hábito, veio o desejo de ver essas grandes companhias e suas montagens ao vivo, o que, convenhamos, não é nada fácil quando se mora no Brasil - e, no meu caso até bem pouco tempo atrás, quando se está em uma cidade sem palco adequado e fora do circuito de turnês internacionais.

A única saída pra isso estava mesmo... lá fora. Desse modo, logo após começar a trabalhar, passei a organizar minhas férias tendo isso em mente.

Foi assim que acabei celebrando meu aniversário de 24 anos assistindo ao Bolshoi com sua versão mais recente de "O Corsário" na Ópera de Paris (a elegantérrima Maria Alexandrova fazia Gulnara). Também foi assim que vi Zenaida Yanowsky dançar meu amado "Sylvia" no Royal Opera House, numa dobradinha, no dia seguinte, com "O Quebra-Nozes", conferido de pé, por singelas 6 libras, lá do fundão do teatro (o que não atrapalhou em nada de me emocionar com a Fada Açucarada de Roberta Marquez no palco que ela abraçou como lar).

Mesmo estando agora a 2 horas e meia de Buenos Aires, conheci a capital portenha apenas quando o Balé do Teatro Colón resolveu montar "Manon", e só dei de cara com a capital basca porque o Ballet Béjart calhou de fazer turnê por lá justo quando estava de passagem pela Espanha. Também intensifiquei a ponte aérea com o Rio para ver, pela primeira (e última) vez, Ana Botafogo no balezão "Onegin" e descobrir o jeito de Márcia Jaqueline dançar em "Coppelia".

Ok, há um pouco de capricho em tudo isso. Mas a questão é que cada novo teatro guarda uma história e cada companhia, uma visão de mundo e de encarar a arte que ganha uma dimensão completamente outra quando conferida "em casa".

O fato é que, hoje em dia, praticamente todas as minhas viagens de lazer se organizam em torno disso. Penso sempre em um destino, uma companhia e vou atrás das possíveis temporadas (não necessariamente nessa ordem). A verdade é que só compro a passagem depois de já ter os ingressos garantidos.

Escrevo tudo isso um tanto sob o efeito da euforia. Acabei de passar o cartão para uma pequena parte da "spring season" do NYCB, o fruto de Balanchine. São cinco programas distintos, um dia após o outro, com direito a um mix de obras de novos coreógrafos e de clássicos. Pra completar, estou no aguardo do início das vendas para outros dois programas do ABT. No meio tempo, rastreio mais possibilidades nas adjacências...

Mais do que dinheiro, tudo isso exige mesmo é planejamento. E planejar, no caso de viagens, representa uns 50% da graça de tudo.

Enquanto a viagem não chega, vou esquentando em nível nacional. Próximo fim de semana é hora de voltar ao Rio para a histórica gala do Royal Opera House por lá. Afinal, a caça a balés é um hobby sem fim.