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domingo, 16 de novembro de 2014

Novíssimos

Cena de "GEN", de Cassilene Abranches | Crédito: Divulgação
Concebido em 2012, o Ateliê de Coreógrafos Brasileiros da São Paulo Companhia de Dança (SPCD) convoca criadores de diversas partes do país para conversar com seu elenco. Este ano foram dois convidados: a paulista radicada em Minas Gerais Cassilene Abranches e o carioca radicado em São Paulo Rafael Gomes. Ambos têm algo em comum: após anos na pele de intérpretes - ela no Grupo Corpo, ele na Cia de Dança Deborah Colker e na própria SPCD -, os dois estão começando agora a experimentar o gosto da coreografia. O resultado foi apresentado no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, entre os dias 13 e 16 de novembro.  

Em vez de negar sua origem, Cassilene a coloca em evidência desde o título de "GEN". É com a ideia de rito de passagem e mudança que ela se aproximou da criação do novo trabalho da São Paulo Companhia de Dança. Há ali muito do Grupo Corpo, evidenciado, principalmente, no modo como os bailarinos se deslocam pelo palco, no peso com que executam saltos e na circularidade na concepção dos movimentos. Há, porém, uma musicalidade diferente, ainda extremamente melódica, mas influenciada pela rítmica do rock com a qual Marcelo Jeneci preparou a trilha. E esse elemento, por si só, já transforma tudo e joga para longe a sensação de se estar vendo algo genérico. Cassi faz um uso inteligente do espaço do palco e demonstra perspicácia na condução dramatúrgica, com um equilíbrio de conjuntos com solos, duos e quartetos, todos bem delineados pela iluminação de Gabriel Pederneiras, em uma obra que, no entanto, ainda precisa ser azeitada com bons ensaios para alcançar mais fluidez poética e dirimir falhas simples de execução.

Já "Bingo!" é a melhor coisa que poderia ter acontecido à SPCD neste momento em que começa a encontrar sua voz, alinhada a trabalhos que fundem precisão e agilidade com lirismo. É uma peça ruidosa, por vezes poluída e cheia de excessos, mas com uma energia completamente singular em relação às demais obras já dançadas pelo grupo. O que há de mais precioso na criação de Rafael Gomes é justamente levar para o palco essa força tão inerente à vida - palpável e real - e que raramente chega assim tão pura e crua à cena devido aos vários filtros que se instalam durante o processo coreográfico.
Rafael Gomes à frente do elenco de "Bingo!" |
Crédito: Silvia Machado/Divulgação
Colocar um dançarino da companhia para criar para (e com) os colegas é um risco e uma aposta pelo peso da responsabilidade, mas talvez tenha sido justamente o fato de estar tão embrenhado nesse organismo e entender o funcionamento dele que o fez se sentir livre para transgredir de certa maneira. Em vez de apequenar-se, Gomes dá uma resposta cênica muito concreta de alguém da sua geração para o tempo que vive.

Há humor, com movimentos quase de brincadeiras infantis. Há ironia, com óculos escuros que geram "carões" à la SPFW. Há violência, com duos no limite da misoginia em que homens jogam mulheres em pegadas que ora projetam energia para fora e ora para dentro dos corpos dos bailarinos. E há a formação de um vocabulário coreográfico duro e seco que se repete alternadamente durante a obra.

São tantas referências em cena que por vezes fica tudo um pouco confuso, seja pela falta de uniformidade nos figurinos pinçados do street wear de Alexandre Herchcovitch, pela grande quantidade de gente em cena fazendo movimentos diferentes ao mesmo tempo, pelas intevenções do DJ Hisato em músicas já muito impregnadas no imaginário, como "The End", do The Doors, ou "Take Five", imortalizada por Dave Brubeck, ou mesmo pelo cenário em que a configuração de neons criados por Kleber Matheus se altera a cada cena. Mas essa avalanche de informações é parte inerente do universo que Rafael Gomes quer retratar, que mescla o lado fútil da moda com o barulhento underground das baladas. Então, por que não tentar e bagunçar tudo? Ver um coreógrafo nascer sem medo de arriscar - e poder fazê-lo dentro de casa - é certamente animador.

sábado, 18 de agosto de 2007

Texto publicado originalmente em 20/07/07, no Jornal O POVO


O toque de Misha


Pouco importava se a coreografia era boa ou ruim. Mikhail Baryshnikov estaria lá e pronto. À frente da companhia norte-americana Hell´s Kitchen Dance, o bailarino russo de 59 anos provou para o público brasileiro o porquê de ainda ser considerado um dos últimos mitos da dança mundial. Na última quarta-feira, abrindo o 25º Festival de Dança de Joinville, em Santa Catarina, ele demonstrou ter o toque de Midas; Misha, como é conhecido, carrega consigo a rara capacidade de transformar qualquer movimento em arte. Daí para frente, a qualidade do espetáculo passa para o segundo plano com a certeza de se encontrar ali algo pronto a se comunicar e a emocionar o público.
Foi essa certeza que fez esgotar, em poucas horas, os ingressos para as quatro apresentações do bailarino do Brasil. Hoje é a vez do Rio de Janeiro conferir o espetáculo que prevê três coreografias. Nos próximos dias 24 e 25, são os paulistas que assistem a ele e a sua nova trupe. Após uma carreira consagrada em companhias como a Bolshoi Ballet e o American Ballet Theater, da qual chegou a ser diretor artístico, o bailarino deixou, há mais de 20 anos, o perfeito domínio do balé clássico para apostar nos instigantes questionamentos da dança contemporânea e se fazer, assim, um artista completo.
Um dia antes da apresentação em Joinville, Misha ensaiava no palco do Centreventos e antevia seus quase cinco mil espectadores na noite seguinte. "Estou me sentindo o Mick Jagger", brincou ele em uma entrevista coletiva, numa referência ao sexagenário vocalista da banda Rolling Stones. De óculos, com calça moletom caindo pelos quadris e tênis All Star desamarrado nos pés, ele se punha na frente do palco para o ensaio do trio de pequenos bailarinos da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil que substituiriam uma mudança de última hora no programa da apresentação.
Enquanto isso, nos bastidores do teatro, o zum-zum-zum corria todo em inglês. Um dos filhos de Baryshnikov, Peter, conversava com algumas alunas da Escola do Bolshoi. "Você também dança?" "Sim" "O que, também dança contemporânea?" "É", afirmou ele, dando mais bola para o papo com as novas amigas. De volta ao palco, o bailarino russo já dançava cercado por jornalistas.
Perfeccionista, ele pedia para ajeitarem o contraste da projeção com a qual contracena. Humano, ele chegou a errar um trecho de uma coreografia de conjunto. Ao cair em si, soltou um sorriso e continuou com o passo correto até o momento em que, achando ser o suficiente, parou a música, fez um gesto de corte no pescoço, agradeceu a quem estava ali e sumiu nas coxias, deixando à deriva a jornalista de TV que tentava gravar um trecho de sua reportagem tendo o bailarino como pano de fundo. Tudo assim, em poucas palavras, com a reserva que lhe é típica e que só permitiu uma única entrevista coletiva no Brasil.
Desde o ano passado, a mais nova empreitada de Baryshnikov está em utilizar seu nome para projetar jovens bailarinos e coreógrafos de dança contemporânea com a Hell´s Kitchen Dance. Acontece que, nesse processo, é impossível ele próprio não ficar em evidência, o que é admitido pelos próprios integrantes do grupo. “Isso tudo é uma troca. Ele está nos ajudando a nos desenvolvermos, viajando todo o mundo e fazendo o que amamos de uma forma bastante midiatizada”, pontua William Briscoe, solista da coreografia "Rom", de Aszure Barton, na qual apresenta um apuro técnico refinado e desponta, de fato, como uma promessa.
As outras peças, "Years Later", de Benjamin Millepied, e "Come In", também de Aszure, correm atrás do famoso bailarino ao tratarem exatamente da relação dele com a sua carreira e com o tempo. Exploram, com isso, a incrível capacidade dele de fazer arte com um corpo já envelhecido, mas profundamente maduro. Maturidade essa que falta em um momento ou outro nos trabalhos, mas é compensada pelo pela força cênica apresentada.
Na primeira coreografia, Misha brinca com imagens projetadas de seu passado de bailarino clássico, ainda bem jovem, e contracena consigo próprio numa tentativa de mostrar que agora ele é bem maior do que aquilo que já foi. Já na segunda, a delicadeza e a doçura enchem o palco numa reverência ao que Baryshnikov foi e ainda é. A cena final diz muito do que o bailarino representa para o grupo. Todos caminham juntos pelo palco, até que Misha pára no meio enquanto os outros prosseguem. Teria sido ele deixado para trás? Que nada. Segundos depois, ele vira as costas para a trupe, que também se vira na direção dele, e passa caminhar e a ser acompanhado pelos demais. Essa é a metáfora para a própria vida do artista. Perto dos 60 anos, sem previsão de quando o corpo vai impedi-lo de continuar a carreira, ele mostra, sim, ainda ser um artista que vale a pena ser seguido.

quinta-feira, 18 de maio de 2006

O Jeito Cubano de Dançar

Dia 6 de maio, viajei de Fortaleza para Recife apenas para conferir o Ballet Nacional de Cuba. Valeu a pena!

Muito se ouve falar da companhia, mas poucos são os que realmente já conseguiram conferi-la de perto. Quem tem esse perfil, chega para assistir à turnê do Ballet de Cuba com várias expectativas: ver saltos explosivos, giros perfeitamente executados e muita energia em toda a ação. Quando as cortinas fecham, todas as histórias incríveis sobre bailarinos com super-habilidades acabam de se confirmar na frente dos olhos. É tudo verdade.
Numa época em que a dificuldade técnica na dança vem sendo banalizada com o intuito de impressionar juízes em festivais, ela chega aos palcos com outra cara. Deixa de ser exibicionismo para se apresentar como virtuosismo e, com isso, retoma a aura das obras do repertório clássico. Esse casamento entre técnica apurada e objeto artístico talvez só seja possível ali por ter conseguido agregar o mesmo valor humano e artístico de Alicia Alonso, a mestra que comanda a Companhia desde sua fundação em 1948.
Nossos olhos estão acostumados a encarar interpretações circenses e fracas de espírito. Por isso, ao ver “A Magia da Dança”, espetáculo que o grupo vem apresentando na turnê brasileira, nossos olhos brilham, não piscam e, por vezes, enchem d´água. A diferença é nítida e emociona desde Giselle, a primeira peça do programa. O segundo ato do famoso balé romântico ganhou uma nova interpretação e trouxe Willis realmente más e uma Giselle (Vingsay Valdés) extremamente sofrida, mas, ainda assim, apaixonada. Interessante perceber que não era só o rosto, mas todo o corpo, todo movimento que transmitia essa mensagem. Um ótimo início para a noite que apenas começa.
O espetáculo apresenta trechos de vários repertórios famosos: A Bela Adormecida, O Quebra-Nozes, Coppelia entre outros. Em cada cena, há sempre um pas-de-deux de referência na coreologia do balé, demonstrando a incrível habilidade dos bailarinos de mostrarem a desenvoltura a dois. Com o passar das peças, as apresentações crescem e parecem ficar ainda mais ricas.
O ápice dessa festa de talentos acontece quando Yanela Piñera e Ernesto Méjica surgem no palco como Mercedes e Espada, anunciando uma cena de Dom Quixote. Talvez porque a latinidade inerente aos corpos deles entre em ebulição da famosa peça do espanhol Cervantes. A sensualidade e a força do povo cubano se mostram muito claras ali, potencializando os movimentos. Destaque para a belíssima interpretação dos toureiros do corpo de baile, outra coisa difícil de ver em terras brasileiras: talentosos rapazes reunidos em um número extremamente bem ensaiado.
Daí para a frente, toda a apresentação continua no mesmo nível elevadíssimo, com o segundo ato de O Lago dos Cisnes e Sinfonia de Gottschalk, coreografia na qual o balé clássico se mistura aos ritmos cubanos e deixa os bailarinos livres para sorrirem sem fim, como numa exaltação à alegria de dançar. Belo final para uma bela noite.
Infelizmente, esse tipo de espetáculo - encenado como uma gala - tem inevitavelmente limitações. Vê-se pouco o trabalho do corpo de baile, ofuscado pelas estrelas que brilham nos pas-de-deux. Daí, as referências de qualidade acabam se voltando mais para aqueles que já são, naturalmente, os carros-chefe da casa, perdendo-se as referências de conjunto. Houve também a ausência da interpretação das variações (solos) de cada pas-de-deux – talvez para encurtar o programa, já bastante extenso. Os cenários - muito pobres - contrastavam com a riqueza de certos figurinos. Acabou ficando a dúvida: aqueles cenários são simples porque foram feitos para turnês ou todos os da Companhia são primários desse jeito por dificuldades financeiras em um país extremamente empobrecido?
Além disso, fica sempre a vontade de ver as obras completas, com todas as nuances. Esse sim é realmente o teste artístico-mor. Mas fica para a próxima. Por enquanto, deu para sentir como é o jeito cubano de fazer balé (e se inspirar também!). O Ballet de Cuba tem apresentações agendadas para os dias 19 e 20 em Porto Alegre, 22 e 23 em Curitiba e no dia 26 de maio em Belo Horizonte. Aproveitem. Ninguém sabe quando ele virá novamente (e, principalmente, se a grandiosa lenda, Alicia Alonso, ainda estará viva para acompanhar o grupo – é emocionante vê-la agradecendo com seus pupilos).